Curta palhaça! Escuta as palhaças! 

Uma história para ser contada por muitas, escritas de mulheres palhaças desse Brasil. Reflexões sobre o espaço de afirmação e construção de uma comicidade que contemple questões de representação, gênero e identidade. 

"Ser palhaça é um ato político"

“Minha história de vida se mistura com esse movimento da palhaçaria feita por mulheres no Brasil. 

Nossa trajetória é novíssima, estamos construindo um caminho juntas, tentando entender quem somos, como somos, que arte queremos fazer com nossas palhaças. E como já fizemos coisas bonitas nesses 30 anos. Que solo fértil criamos! 

A Palhaçaria feita por mulheres quando começa, traz com ela uma proposta disruptiva de toda uma estrutura patriarcal, violenta contida nas dramaturgias clássicas tradicionais circenses, a qual o público estava tão acostumado a ver nos circos e em cenas protagonizadas pelos palhaços homens. 

Nossa entrada na palhaçaria chega para convidar a mulher público a rir conosco, a se divertir, e se ver representada em cena com respeito, pois em 90% das cenas clássicas, a mulher é colocada em vulnerabilidade e como objeto de riso.  

O movimento das mulheres palhaças é um marco na história da palhaçaria e das artes em geral. Em nossos espetáculos muitas vezes fazemos uma denúncia com reflexão e terminamos com uma proposta efetiva de mudança. Viemos com um trabalho autoral, democrático, inclusivo, questionador , pois trazemos conosco a premissa de nos colocar em jogo e rirmos da gente, das nossas frustrações, dos nossos defeitos, fazendo com que essa mulher público se veja projetada em nós e ria conosco.  

A gente só ri, do que reconhece! 

Finalizo citando a grega Baubo que fez exatamente isso com Deméter, quando essa já não tinha mais forças para procurar sua filha Perséfone que havia sido sequestrada por Hades. Baubo se colocou em riso para Deméter e fez com que Deméter pudesse ao se sentir representada risse de Baubo, e através desse riso, com a força revigorada saiu em busca da sua filha e a encontrou. Já na Grécia a sororidade e comunhão entre as mulheres através do riso acontecia. 

Ser palhaça mulher pra mim é um ato político, uma função social.” 

Karla Concá – Cofundadora em 1991 do grupo As Marias da Graça. Filha. Mãe. Palhaça. Atriz. Diretora. Professora. (Rio de Janeiro) 

"Palhaçaria feminina é primordial"

“Penso que Bandeira e Catita (figuras que me acompanham há 15 e 8 anos respectivamente) conseguem me trazer para dentro da missão que é, dentro do riso, poder dizer ao mundo que sou uma artista.  

Brincar na palhaçaria, sempre me foi caminho potente de dizer, bem dito, aos quatro cantos que sou e que vou ocupar este lugar na comicidade! ” 

Odília Nunes – Palhaças Catita e Bandeira (Pernambuco) 

 

 

“Em uma sociedade em que o machismo e patriarcado são estruturais, a palhaçaria feminina é primordial. Vemos ainda hoje, muitas cenas na palhaçaria masculina, com teor de violência, preconceitos, machismos, homofobia…  

A palhaçaria feminina vem quebrar esse paradigma social, vem mostrar que é possível fazer rir sem agredir. Estamos construindo uma nova dramaturgia!” 

Samantha Anciães – Palhaça IracemaAs Marias da Graça (Rio de Janeiro) 

"Palhaça é a possibilidade do sim"

“Falar da mulher palhaça é falar da mulher em todas as profissões, em todos os tempos históricos, sempre estivemos lá, fazendo acontecer, mas nos registros “oficiais” muitas vezes não somos citadas. A palhaça traz um novo olhar, uma nova forma, mesmo utilizando a mesma estrutura, se a mesma entrada cômica, a mesma cena for representada por mil palhaços deferentes, será mil vezes diferente, agora se uma palhaça representar essa cena será duplamente diferente, porque trazemos todo o universo feminino, ser palhaça é romper com todo o castramento em que fomos “educadas – Mulher não faz assim, não anda assim, não fala isso, não veste assim, não senta assim, não se exibe assim não não não não…. A palhaça é a possibilidade do sim, sim, sim.,, _Oh raia o sol suspende a lua – Olha a palhaça no meio da rua.” 

Selma Pavanelli – Palhaça Tinnimm MalaGreta (Rondônia) 

 

 

“Atualmente participo de dois coletivos de mulheres palhaças: As Theodoras e o NIC – núcleo de investigação clownesca. Com as Theodoras temos um olhar atento para as questões de gênero. A ideia do grupo é trabalhar com uma comicidade que não ratifique os padrões hegemônicos de feminilidade. Para além da pesquisa do grupo acredito que a busca por uma dramaturgia feminina que, se construa a partir da subjetividade de cada palhaça, enriquece muito a cena cômica. É interessante ver que os números cômicos femininos não se baseiam nas gags clássicas de palhaçaria, na quais, entre outros aspectos, há muito bem delimitado as figuras do Branco e do Augusto e muitas vezes se pautam a partir de brigas e rivalidade.” 

Luciana Prestes – Palhaça Magnólia Marguerite (Rio Grande do Sul) 

"Estamos fazendo história"

“Qual é a minha graça? O que de fato me faz rir? E o que está por trás desse riso? Acredito que a palhaçaria feminina abre portas no circo e na comicidade em geral que poucas décadas atrás não eram sequer cogitadas. Rir é uma delícia, mas rir de quê? E por quê? Mesmo nós, mulheres/lgbt+/artistas negres (e por aí vai), que partimos de um lugar diferente,  é fundamental questionar sempre: o que estou fazendo? Como estou fazendo? O que eu quero dizer realmente está chegando do lado de lá? 

No Cabaré das Divinas Tetas nós propomos a discussão desse feminino. Mas não apenas do ser mulher, mas toda e qualquer manifestação desse feminino, e o que quer que ele seja e se proponha a ser. E é dessas portas que eu falo: que se abra as fronteiras para todas as possibilidades possíveis e imagináveis. “Contra toda autoridad, excepto mi mamá”. 

Dagmar Bedê – Palhaça Titica (Minas Gerais) 

 

“A palhaçaria trata de liberdade, ousadia e irreverência como elementos potenciais da máscara. Como mulheres hj nos movimentamos no sentido de nos unirmos em matilha, nos reforçarmos, criarmos um corpo social que preze, defenda e banque está liberdade real nas nossas vidas de brincantes-palhaças que somos.” 

Patrícia Sacchet – Palhaça Ondina (Rio Grande do Sul) 

 

 

 

 

“O que percebo em meus estudos na arte da palhaçaria, como mulher e como palhaça a mais de 20 anos, é que este movimento foi sendo construído intuitivamente, por uma necessidade genuína, seguindo sua natureza. Claro que com muito trabalho e persistência, mas o percebo como uma continuidade da expansão da mulher e do fortalecimento de um espaço de autonomia e representatividade. A palhaçaria feminina me parece ter, na sua essência, a busca por uma palhaçaria autêntica, que não imita, mas que se utiliza das suas próprias dores e alegrias como mote para as suas criações artísticas. Acho que as mulheres palhaças trazem para esta arte uma possibilidade de aprofundamento do sensível e a abordagem de temáticas do próprio universo feminino, transcendendo o riso e nos colocando num lugar de celebração e de comunhão. Viva a palhaçaria feminina! Viva a força e a união das mulheres palhaças! Estamos fazendo história!” 

Eveliana Marques Ekin – Palhaça Leontina (Rio Grande do Sul) 

"Fortalecimento do humor feminino"

“Desde a Grécia Antiga, a participação das mulheres em cena era proibida, mas há registros de sua presença. Nas origens da mitologia grega, por exemplo, os espetáculos cômicos eram protagonizados pelas mulheres. 

Alice Viveiros de Castro, pesquisadora, relata que “há toda outra história que corre além das histórias oficiais. Se prestarmos atenção, vamos encontrar mulheres cômicas recitando poesias na Grécia antiga, dançando na Índia e mandando ver no Circo Romano. Em Bizâncio, a história celebra Teodora, circense de talento ou prostituta leviana, ou talvez uma mulher inteligente que não se curvou aos preconceitos de sua época? Na Idade Média a figura feminina do menestrel errante era chamada spilwin, mas pouco se escreveu sobre ela. As atrizes da Commedia dell’arte eram fabulosas cômicas. E sabiam saltar, dançar e cantar muito bem. Mas pouco se fala delas. A história da mulher cômica é cheia de silêncios e falhas.” 

As mulheres percorreram a história manifestando-se teatral e comicamente, só que as normas estruturados pelo patriarcado construiu padrões para as mulheres que vigoram até hoje, como a santa e a pecadora, a frágil, a comportada, e a manifestação através do riso obviamente, vinculada também à inadequação sempre esteve fora do padrão. Qualquer figura que sai dos limites impostos é passível de recriminação, principalmente dos homens. 

Neste contexto, a palhaçaria feminina usa o erro, a falha, a sexualidade, sensualidade, características físicas, para construir uma comicidade identitária e libertadora dos padrões vigentes impostos. Com a dificuldade de inserção num mundo dominado pelos homens, na palhaçaria tradicional, mulheres cômicas e palhaças procuraram se reinventar, trazendo para a cena um novo repertório e novas formas de existir, através de seu ofício. As mulheres estão buscando novas regras, mais justas e igualitárias e não querem mais ser definidas pelos homens. As palhaças em sua pesquisa e ação teatral, desconstroem padrões de beleza e comportamento, afirmam a liberdade, além de declarar para o mundo o poder e a virilidade do corpo e da ação feminina. 

Portanto a importância das mulheres cômicas ou palhaças fortalecerem um espaço de  construção de uma comicidade “afirmativa” é fundamental para todas aquelas que estão buscando um caminho mais original, mais sintonizado com a essência feminina que não é a de um ser frágil e necessitado de proteção. É fundamental para o fortalecimento do humor feminino no teatro o fato de mulheres terem o  reconhecimento de uma pesquisa que inclusive questiona os padrões impostos por uma sociedade machista e de um universo teatral, atravessado de preconceitos e discriminações.” 

Nara Menezes, palhaça, atriz, produtora cultural 

"Crio o presente e mudo o futuro"

“Historicamente, nessa sociedade patriarcal, as mulheres sempre tiveram que lutar pelo seu espaço e na tradição da palhaçaria não foi diferente. Há uns anos atrás, na construção da minha palhaça, a Fadiga, infelizmente, as minhas maiores referências foram masculinas, então precisei olhar pra dentro de mim mesma e me descobrir como mulher palhaçA. Carrego comigo toda a carga e resistência que é ser mulher. Utilizo na comicidade todas as minhas imperfeições, falhas e vitórias, as minhas características físicas e minha condição social, o meu gênero, a minha sexualidade, a minha maternidade e todas as formas que contemplam a minha identidade. Hoje protagonizo um espetáculo de palhaçaria ao lado de dois palhaços homens e sinto orgulho de dizer que construímos um trabalho imbuído em novos paradigmas, provocando uma ruptura contra o machismo e a desigualdade, mas a caminhada está só começando e temos muito que continuar.” 

Mariana Abreu – Palhaça Fadiga (Rio Grande do Sul) 

 
Entendo que seja um espaço e um movimento necessário. Nós buscamos lugares onde nos sintamos representadas, e que possam representar outras pessoas também, se esses lugares onde queremos estar estão fechados, a gente precisa abrir, criar, recriar e reinventar. Honro o passado, crio o presente e mudo o futuro.” 

Michelle Silveira Michi – Palhaça Barrica (Santa Cararina) 

 

“Para me afirmar nesse universo circense como palhaça, eu tive que entrar no universo masculino do circo como palhaço. Mas, abrir uma fronteira para autoafirmação e dizer para o universo masculino que eu sou palhaça, posso ser palhaço e tenho comicidade. Daí, isso tudo me ajudou para criação da minha palhaça fortificada que hoje eu tenho chama-se Dartycleya com Y que é uma palhaça negra que eu faço no qual defendo o movimento negro. 

Considerando todos os esforços até hoje, é um universo preconceituoso, a palhaçaria feminina ainda não obteve o destaque merecido. Apesar dos movimentos de palhaçaria no Brasil ter crescido consideravelmente.” 

Madalena Acyoli – Palhaça Dartycleya com Y. Palhaço Picolé. (Paraíba) 

"Deusas do riso!"

“O primeiro encontro que tive com a palhaçaria foi em 2005, em São Paulo. Quem ministrava o curso era a Palhaça Dona Negron, do circo Clã! Ela tinha dois filhos de 6 e 7 anos que também já faziam palhaçaria. A cena que eu montei para a conclusão de curso não era para a idade deles, porém ela me deixou muito à vontade e disse que poderia apresentar sem problemas,  que depois ela se virava com as questões,  caso eles perguntassem algo. 

Quando vim para Curitiba foi uma realidade totalmente diferente na aérea da Palhaçaria, havia muita censura, preconceitos e muitas regras que eu desconhecia.  Não senti muito preconceito em ser mulher na verdade e sim pelos temas que trazia, algumas das vezes de cunho sexual! Na minha experiência como palhaça,  era muitas vezes reprimida por palhaços homens e mulheres, por ser a grande maioria e já terem um tempo a mais de experiência que eu, nunca parei pra associar ao meu gênero, pois o que sentia era mais questão de ego que qualquer outra coisa. 

Apesar de saber que historicamente  as Palhaças foram muito reprimidas,  não acredito num humor de gênero,  acredito no humor,  claro que há piadas de cada universo em particular,  porém sei que está ligado muito mais a qualidade e conteúdo do que gênero. Não descarto a discriminação que existe,  mas nas minhas experiências,  pelo menos do que eu percebi,  foram outras coisas que me “impediam” de fazer meu humor.” 

Iara Gonzalez – Palhaça Páprica (Paraná) 


“A representatividade das diferentes expressões nas artes é de extrema importância e na 
palhaçaria não poderia ser diferente. Somos plurais e nessa diversidade vivem possibilidades ricas e pulsantes. A palhaçaria feminina ganha muita força e potência quando legitima seu olhar para as questões que atravessam o universo das mulheres. As nuances, complexidades, os ciclos que nos constituem são de uma riqueza incrível para nossas criações.” 

Lolita Goldschmidt. Palhaça Hipotenusa Pressurizada (Rio Grande do Sul) 

 

 

 

“Deusas do Riso! 

Que sua alegria nos liberte! 

Que os  seus corpos e seus sorrisos  se unam  cada vez mais para quebrar as  correntes que aprisionam a alegria e o seu poder transformador!” 

Kalisy Cabeda – Palhaça (Rio Grande do Sul) 

"Ocupamos o lugar de protagonistas"

“Do ponto de vista da representatividade é fundamental que temos, hoje, exemplos de Mulheres Palhaças, que exploram a diversidade do ser mulher. Não uma visão genérica e estereotipada de mulher, mas contextos cômicos em que o lugar da mulher na própria sociedade também são temas gerados da comicidade e reflexão.  

Também importante pontuar que não se trata de uma identidade homogênea, padronizada. Pelo contrário, os movimentos de Palhaçaria feita por mulheres têm debatido o quanto a identidade está repleta de tensionamentos e cruzamentos com questões que perpassam tanto as categorias identitárias quanto as idiossincrasias de cada palhaça. Então podemos falar de comicidades, num plural bastante diverso. 

Pela perspectiva histórica, de um modo geral, a gente vê que de umas décadas para cá, os figurinos das palhaças foram ganhando liberdade: as mulheres não precisam mais ser ‘palhaços’. Também ocorreu um aporte a novos temas para a comicidade e gags clássicas, reflexões que geram identificações, mas também fricções com artistas e público. 

Também reflito que o movimento de redes tem sido um disparador fundamental. As oficinas, os encontros, os festivais direcionados congregam e gestam novas redes de palhaças. Geram reencontros, reforçam os laços afetivos e compartilhamento de saberes.   Eu analiso isso como uma característica muito forte das Palhaças no Brasil, o que dá a própria noção de identidade uma perspectiva coletiva, compartilhada e não apenas uma perspectiva individual, contribuindo para o respeito mútuo. As redes de Palhaças, os grupos e os festivais têm contribuído significativamente para indicar e demonstrar a diversidade existente na Palhaçaria feita por mulheres.” 

Raquel Guerra – Palhaça Contorciocida Carniça Podre (Rio Grande do Sul) 

 

“Desejo conhecer, cada vez mais e mais, palhaças na ânsia de descobrir novas possibilidades de figuras, tempos cômicos, dramaturgias que são criadas em corpos parecidos com o meu. Nos festivais, cabarés, teatros é possível ver uma gama de mulheres produzindo, criando e tecendo cada vez mais profundamente este vasto universo.  

Eu e minha dupla Camila Barra, na Minha Dupla Cia., resolvemos nos inspirar, também, nas mulheres das nossas famílias, nas nossas mães, avós, tias, que se tivessem a oportunidade e espaço, talvez decidissem ocupar os picadeiros como protagonistas para mostrarem seu lado jocoso, cômico de palhaças.  

Nos inspiramos também nas histórias e vivências das mulheres da cultura popular que vem conquistando espaço em alguns brinquedos populares e ocupando o lugar de protagonistas, como é o caso do Maracatu Rural Coração Nazareno, em Nazaré da Mata- PE, o primeiro Maracatu feminino de Baque Solto, feito só por mulheres. Quando ocupamos o lugar de protagonistas seja nos brinquedos populares, seja na palhaçaria estamos nos fortalecendo umas às outras e colocando nossas questões e nossa voz em pauta.  

No Maracatu Coração Nazareno os versos das Loas nos falam sobre gênero e violência, alertando a sociedade sobre as questões que as mulheres daquele lugar perpassam. Assim como nas dramaturgias que nós palhaças estamos construindo tratamos sobre questões de gênero, padrões de beleza, gordofobia entre outros temas que nos perpassam e contribuem para a construção de um espaço mais igual, que nos caiba, que nos contemplem, que seja também nosso.” 

Nathalia Cantarino. Palhaça Vitória Régia da Minha Dupla Cia. Artística (Rio de Janeiro) 

"Território em plena construção"

palhaçaria feminina surgiu em meu trabalho de maneira inesperada e inevitável em um ambiente hospitalar, onde 90% do quórum era feminino. Dentro de um projeto de palhaços de hospital, o fato das pessoas assistirem a mulheres fazendo piada ou se colocando em situações de riso, de ridículo, provocava uma estranheza que me mobilizou. Este desconforto partia muitas vezes do próprio público feminino. O fazer incialmente empírico buscou fundamentação teórica e apoio em movimentos feministas, sociais e históricos. Considerando este último, na história do circo, a figura da mulher sempre representou graça, beleza e perfeição nas funções de assistência ou, nos casos de maior destaque, em algum número de acrobacia. Dentro das narrativas circenses clássicas, a mulher também aparecia como objeto de disputa ou alvo de piadas depreciativas. Em casos da mulher fazer o papel do palhaço, ela devia travestir-se e apresentar-se como homem. O protagonismo jamais era feminino. 

Com o movimento da palhaçaria feminina ganhando força nos últimos anos, vários grupos se formaram e várias pesquisas teóricas e práticas têm sido produzidas. Este espaço tem se mostrado um lugar de fala, escuta e reflexão e das questões que abarcam o feminino. Dentro disso, está sendo construída uma dramaturgia que incorpora temas caros às mulheres, como maternidade, vida doméstica, relações conjugais, carreira, construções sociais, etc. Esta dramaturgia tem encontrado outros estados, que não o da disputa, da intriga ou da vantagem, como é comum se perceber na dramaturgia circense clássica. A palhaçaria feminina se mostra ativista quando a questão é a desconstrução de conceitos limitantes e que enquadram a mulher em um determinado papel sempre. Questões de equidade, respeito e valorização da mulher e do feminino aparecem com frequência em trabalhos das palhaças Brasil afora. 

Caminhando lado a lado com esta gama de questões de ordem social, estética e política, temos a técnica. Embora a narrativa feminina dentro desta linguagem esteja sendo construída, para além do discurso, o fazer artístico necessita contemplar o que já foi feito e a partir desse ponto, construir novas possibilidades. Um bom palhaço precisa dominar alguns estratagemas técnicos para desempenhar bem sua função palhacística. Um bom palhaço (a) é trabalho para uma vida. O que também tem se mostrado diversa é a própria estrutura da figura no que diz respeito ao gênero. Hoje percebemos que o branco e augusto representam muito mais uma polaridade masculina, onde a mulher, com seu caráter cíclico não se encaixa, transitando de um ponto ao outro e em todas suas variáveis. 

Enfim, podemos entender a palhaçaria feminina como um território em plena construção, onde as vozes são ouvidas e legitimadas, onde se dividem angústias, alegrias e tudo mais que contemple ser mulher e finalmente, poder rir de si mesma.” 

Odelta Simonetti – Palhaça Rarley Davidson (Rio Grande do Sul) 

"Um período de movimento"

“Acredito que a comicidade é cultural, reflexo da sociedade que a constitui, e é urgente revolucionarmos ambas. Sabemos que a muito tempo a mídia e a indústria cultural se utilizam de um humor onde as minorias são a chacota, oriundas de piadas carregadas de preconceitos de gênero. Por outro lado, vejo que já estamos vivendo um período de movimento, pois diversos grupos já se perguntam e questionam sobre do que rimos. Muitos artistas do humor já estão colocando o riso em outro lugar, criticando esse modelo social. Aliás, se pensarmos na história da comicidade e da Palhaçaria, seja nos seus antecessores como o bobo da corte e os charlatões ou os palhaços sagrados ligados a determinadas tribos, como os hotxuá presentes na tribo Kraós ou os xamânicos existentes nos índios norte-americanos observados por Richard Pochinko, podemos entender que esse ser, sempre cumpriu esse papel de criticar a elite e seus poderes opressores. Sabemos que o circo moderno (com picadeiro circular e números) se constitui na Inglaterra do século XVIII e foi criado pelo ex-militar inglês Philip Astley em 1768, em Londres, o Royal Amphitheatre of Arts (Anfiteatro Real das Artes), onde o palhaço aparece para quebrar com o riso números de exercícios com cavalos, acrobacias e malabarismos que exigiam muita força física. Portanto, o próprio circo como conhecemos tem toda uma cultura militar embutida em sua bagagem histórica, pois se origina em uma sociedade onde não era permitido às mulheres muitas atividades, nem atitudes e comportamentos. Não podemos esquecer que foi nesse mesmo período, na Comédia Dell’arte, que recém havia sido permitido às mulheres, o teatro, surgindo assim, as primeiras atrizes. Por isso, é fundamental contextualizarmos historicamente para que possamos melhor compreender a representatividade da mulher na palhaçaria hoje. Não é difícil perceber que o que vemos no circo tradicional é consequência do modelo social que ausentou e ainda ausenta a mulher de diversos ofícios. Ainda hoje, existem poucas palhaças nos circos de lona no Brasil. Todavia, vemos um grande aumento de palhaças nas ruas, nas praças e nos palcos teatrais, além, é claro, do novo circo, o que ao meu ver é resultado de uma luta árdua de mulheres artistas. E, logicamente, também é fruto da sociedade em que vivemos e da luta da mulher por igualdade de oportunidades e por mais espaços para que cesse a supremacia baseada em relações de poder por gênero. Se hoje podemos escrever, pensar e existir em mais alguns papéis sociais, devemos isso a incansável luta feminista. “Não se nasce mulher, torna se mulher”, já diria Simone de Beauvoir. Dessa maneira, ao compreender que a mulher se constitui por um fator social que determina o que é ser mulher, falar em Palhaçaria feminina é falar de Palhaçaria para e com esse ser construído culturalmente. E a base do ser feminino é histórica e cultural, onde a mulher é colocada em um papel de submissão e objetificação de seu corpo. Por tudo isso, não acredito que essa seja uma forma eficaz para reconhecer a necessidade de afirmação e de valorização da representatividade de nós, mulheres no humor. Entretanto, o que vejo como urgente é tremularmos a bandeira de uma Palhaçaria feminista, que lute por igualdade de oportunidades e por uma transformação social de matriz cultural. Penso que, a Palhaçaria pode e deve mudar o mundo ao desvendar suas mazelas e mostrar o quão fracassado o sistema capitalista é e está. E a potência desse ser palhace para dizer isso tudo é gigantesca. Acredito nesse ser como uma figura ancestral e milenar que permeia muitas civilizações que ouso até disse que é como um arquétipo. Essa identidade fluida é acessada em qualquer ser humano, que esteja disposto a essa experiência, que acontece ao nos entregarmos para esse mergulho interno, “da inocência depois da experiência”, como diria Sue Morrison. E esse estado tem princípios claros, independente do gênero, e arrisco a colocar que até do tempo e do espaço. Importante também, não negarmos os saberes de nossos antepassados sobre origens do riso, nem as estruturas e formas da dramaturgia circense clássica, mas estudar, entender e construir a partir daí, um novo lugar. Afinal, tudo se transforma de acordo com seu meio, e hoje em dia, já estamos em um contexto onde existem discussões pela valorização da diversidade e das múltiplas identidades, as quais, devemos somar ao legado e a construção histórica do saber da Palhaçaria. Agradeço a Andrea Macera, Caco Mattos, Sílvia Leblon, Adelvane Néia e Ésio Magalhães, grandes mestres que me fizeram enxergar isso. Parabéns ao Sesc por sempre fomentar discussões vanguardistas. Sigamos lutando como feministas pelo humor revolucionário, que transforma a sociedade com e pelo riso.” 

Raquel Valério. Palhaça Vallery Apocalíptica (Rio Grande do Sul)