Textos

A periferia é o novo centro

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Carlinhos Santos

O funk brasileiro é hoje o ritmo mais bombado mundo afora. Nasceu nas favelas cariocas. Ao gravar “Girl From Rio”, Anitta sai da Zona Sul da Garota de Ipanema e convida para um passeio pelas periferias do Rio.  Numa das letras de seu novo disco, “Meu Coco”, Caetano Veloso diz que o futuro é “um menino guenzo ou um gigante negro de olho azul, yanomâmi, luso, banto, sul”. É deste Sul que a nova ordem tem falado há um bom tempo. Subverter os ditames do Norte na geopolítica mundial é o cerne das Epistemologias do Sul, propostas pelo sociólogo português Boaventura de Souza Santos, que viveu nas favelas cariocas. O tempo é de revisões das narrativas de representatividade e poder. Na cena caxiense, por exemplo, a cultura hip hop flui nos bairros e dá outro tom à colônia em trânsito para a urbanidade.

Sim, a periferia é novo centro. Reafirmando o conceito de lugar de fala, a questão é que os discursos dos que há muito estavam invisibilizados são contemplados e referendados na contemporaneidade. Eles são necessários. Na obra “O Local da Cultura”, o indiano Homi Bhabha descreve como os discursos de poder estabelecem relações de superioridade, forjando colonizadores e colonizados. É para reverter esse contexto que os olhares recaem sobre os novos protagonistas da cultura contemporânea. As falas dos índios, dos negros, das mulheres, dos quilombolas, dos gays, dos e das trans, dos slammers, da diversidade toda, é que vem sendo solicitada e ouvida. Viraram o centro dos debates. Até no universo da moda, gueto agora é hype.

Já no Intercom de 2010, na Universidade de Caxias do Sul, o sociólogo Muniz Sodré falava que a cidade contemporânea é reticular, não tem mais um centro. São os fragmentos que dizem mais do todo e organizam novos circuitos e significados. Pelas margens, nas bordas sociais são tecidos afetos e estratégias de afirmação. Afetar-se significa se importar com o outro. Neste ano de 2021, por exemplo, na Festa Literária Internacional de Paraty, o debate será sobre a contribuição dos ensinamentos indígenas e da natureza. Os saberes ancestrais são chamados a salvaguardar o futuro.

Emerge nesse contexto a figura do líder indígena e ambientalista Ailton Krenak e suas falas atentas sobre novas-velhas cosmogonias. Ao mesmo tempo, “Pequeno Manual Antirracista”, da filósofa feminista negra Djamila Ribeiro, vira leitura obrigatória desses novos tempos. Reforçando esse olhar sobre bordas em evidência, a Lia Rodrigues Companhia de Dança, principal formação de dança contemporânea brasileira, tem sua sede no complexo de favelas da Maré, no Rio. Movimentos dos entornos brasileiros que dançam no mundo.

Tecida em redes de comunicação, que aproximam diferentes territórios, tramadas pelas novas conexões – ora conceituais, ora tecnológicas -, surge uma cartografia da deriva para novos e potentes encontros. Nasce outro ambiente para os diálogos culturais necessários. É nesses espaços onde estão sendo experimentadas ações coletivas de afirmação das periferias que se forjam os novos locais da cultura decolonizada. Ou, como diria o rapper Chiquinho Divilas, mais do que nunca a hora é do “nós por nós”.

 

Carlinhos Santos é jornalista cultural, formado em História e Jornalismo, Mestre em Educação e Especialista em Corpo e Cultura

Louvado seja o amor

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Nivaldo Pereira 

Guimarães Rosa escreveu: “Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”. Esse pequeno trecho do Grande Sertão: Veredas muito ilumina nosso tempo, em que diferenças de pensamentos criam fossos abissais onde corre vivo o ódio. Falta amor no mundo, claro. E sem o terreno fértil do amor, não há como florescer a empatia, a solidariedade, a amizade, o respeito. Não há como haver um futuro em que brilhe a luz do humano. Por isso, nesse atravessar atual de grandes provações e de muita insanidade, é quando mais precisamos evocar o amor. Nas conexões de um novo tempo, trazidas à reflexão pela nova edição da Aldeia Sesc, o amor há que ser louvado.

Para ilustrar a potência agregadora do amor, o Clube do Fotógrafo de Caxias do Sul trouxe imagens que conjugam refinada sensibilidade e qualidade estética. São olhares diversos sobre a capacidade do amor de quebrar limitações e transpor diferenças, gerando sempre união e paz. Das aspirações apaixonadas de jovens recém-casados à cumplicidade plena do casal idoso, da magia natural da dupla de passarinhos à ternura das mãos dadas, o amor surge em facetas sempre encantadoras. Como diz a canção, “o amor não cabe em si”. Ele quer sempre se espalhar. E as fotografias provam isso.

Por conta das reinvenções dos eventos em tempos de pandemia, essas imagens inspiradoras do amor foram espalhadas em outdoors pelas ruas de Caxias do Sul. E chegam também a este site da Aldeia Sesc. É o que queremos: que o amor, sem preconceitos, seja um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Louvado seja o amor.

Confira a exposição Louvado seja o amor

A Aldeia no Globo e o Global na Aldeia

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Alessandra Rech

A noção de aldeia global, que se estabeleceu a partir do desenvolvimento de tecnologias de informação capazes de nos conectar rapidamente com fatos ocorridos do outro lado do mundo, cuja internet é a expressão máxima, foi ressignificada em 2020 pela pandemia de Covid. Se, do ponto de vista das ideias e deslocamentos, vivíamos claramente o encurtamento das distâncias, a partir da disseminação planetária do vírus ficou mais clara a percepção acerca da nossa interdependência nesta aldeia global que habitamos.

Além da necessidade de ações rápidas e abrangentes, fundamentadas na ciência, para combatermos o coronavírus, outros temas, igualmente, clamam a busca por soluções coletivas neste planeta-aldeia do século XXI, especialmente a crise climática causada pela mão do homem, fruto da ânsia desenvolvimentista que desconsidera o esgotamento dos recursos naturais e a tragédia social causada pela concentração e acumulação do capital.

Nas aldeias que constituíram a história mais primitiva da presença humana na Terra, agir coletiva e estrategicamente para combater ameaças letais, certamente, esteve entre os principais propósitos desses agrupamentos. Se entendermos que o planeta configura-se como uma ‘aldeia global’, seria natural que buscássemos coletivamente soluções para o que ameaça a continuidade da vida, seja o vírus, o efeito-estufa ou a desigualdade social, com suas complexas implicações. Afinal, o que nos caracteriza como civilização se não a capacidade de cuidarmos um dos outros no enfrentamento da extinção iminente?

Mais do que a invenção do fogo, da roda, das ferramentas e das armas de caça, a evolução humana enquanto espécie é lembrada a partir da descoberta do primeiro esqueleto com um fêmur cicatrizado, como afirma a antropóloga Margaret Mead, a respeito de uma ossada de 15 mil anos encontrada em um sítio arqueológico. Para ela, essa é a marca de que a aldeia pôde mudar o curso de suas corridas pela sobrevivência cotidiana para trazer consigo alguém que, ferido, só sobreviveria a partir da proteção coletiva durante as cerca de seis semanas necessárias à cura.

Nas sociedades que constituímos, consideradas como pós-modernas, podemos entender como aldeia o condomínio, o bairro, a cidade onde vivemos? De certa forma, sim, se o que estiver em jogo for esse conjunto de valores atávicos que nos aconselham a protegermo-nos conjuntamente. E quando pensamos nessa congregação em torno da perpetuação de um grupo, fica evidente a atualidade do papel ancestral das artes e dos ritos que nos confortam enquanto seres fadados ao fim, ajudam a encontrar sentido ante o que seria a mera repetição dos dias.

Pensar junto, expressar anseios e aflições, emocionar-se, confraternizar. O Aldeia Sesc, neste ano de 2021, ainda marcado por muitas perdas para a pandemia e para os destemperos da ganância, do autoritarismo, da violência e da exclusão, entre outras mazelas, promove, de forma lúdica, afetiva e profundamente mobilizadora o que o sociólogo Michel Maffesoli entende como o espírito de nossa época, o “tempo das tribos”. Declínio do individualismo em nome de conexões que façam mais sentido para as pessoas e para o planeta, este tempo tribal presentificado valoriza o que de fato se leva dessa vida: as sociabilidades, as experiências, as vivências na aldeia. Celebremos!

Alessandra Rech é jornalista, escritora e professora dos cursos de Comunicação e do Mestrado em Letras e Cultura da Universidade de Caxias do Sul. Doutora em Literatura Brasileira e Especialista em Epistemologias do Sul